Há dias nos quais pensamentos ficam nos cutucando por horas a fio, sem dar trégua. Em muitos desses dias, os pensamentos em questão são ruins, ou, pelo menos, incomodam. E por mais que tentemos não dar atenção a eles, não adianta, principalmente se nos encontramos num dia vazio, sem trabalho ou ocupação.
Comigo, isso acontece, na maioria das vezes, à noite. E, claro, a insônia se aproveita desse 'comprometimento' da minha mente pra me pregar uma peça e não me deixar cair no sono. Não pode com eles, junte-se a eles. Minha solução sempre é sentar, olhando pra longe, num lugar quieto (privilégio do lugar onde moro).
Numa dessas noites, não muito tempo atrás, fui surpreendido, enquanto refletia, por clarões ao longe, no horizonte. Era quase 1h da manhã. Como as casas do outro lado da rua impediam a visão mais clara, fui até uma esquina, aqui próxima de casa, mais alta, para contemplar a cena. Belíssima, por sinal.
Um espetáculo de relâmpagos numa noite estrelada (sobre mim), porém, nublada densamente no horizonte. O céu escuro e límpido que pairava sobre minha cabeça era interrompido, no horizonte, por nuvens grandes, no entanto quase imperceptíveis na paisagem noturna. Mas constantemente, separados por alguns segundos, às vezes até menos, relâmpagos brilhantes, fulminantes, pintavam as silhuetas dessas nuvens. Por um motivo que desconheço, na minha ignorância, as luzes eram de um amarelo vivo, e, ao se manifestarem, os relâmpagos faziam vir à luz, literalmente, não apenas os contornos dessas nuvens, mas também me dava uma noção de profundidade que me permitiu perceber um amontoado sinistro de formações nebulosas.
Na minha cabeça viajada, aquilo parecia um espetáculo dos deuses do Olimpo, ou uma briga entre eles. Sem a menor preocupação com mais nada, fiquei a contemplar, desinteressadamente, a cena e os fulminantes relâmpagos brilhantes no horizonte.
Até que, uma hora depois, um bocejo!
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Femme Fatale
Quero uma dama sagaz,
Que não só fale, faça
E não me deixe dizer "mas".
Que não só fale, faça
E não me deixe dizer "mas".
Categoria:
poesia
Ano da Realização
Primeiramente, queria desculpar nossos amigos leitores do blog pelo tempo ausente, porém, cá estou de volta, ainda mais crédulo no futuro do país, crítico com a política coronelista do Estado, e por aí vai.
Mas não é sobre política, economia, música, esse post é sobre realização. Na virada desse ano, meu pai disse para mim que esse ano, de acordo com estudos cabalísticos seria o ano da realização, pois representa o número 3 (2010 – 2+0+1+0= 3). Não levei muito em conta o que ele disse, nós jovens somos um tanto extremistas quanto a crer em determinada coisa que não tem explicação lógica.
E passou janeiro e parte de fevereiro e, nesses quarenta e cinco dias, tive duas grandes notícias: a primeira é que o Jamil e a Hermínia não serão os únicos titios ou titias do blog, terei um sobrinho para ensinar violão, torcer pelo Atlético, escutar Bezerra, ler Le Monde Diplomatique, ensinar a história dos países latino-americanos. A segunda notícia é que consegui, mesmo sem retomar os estudos do cursinho, ser aprovado no vestibular de Direito da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo. Estou fazendo as malas, com o coração na mão pela família, os amigos, o time, a minha vida inteira que foi resumida pelos ares gelados da capital social Curitiba. Ainda bem que essa mudança não impede minha participação nesse blog.
Gostaria de desejar a todos essa realização, aproveitem, o ano ainda está no começo.
Mas não é sobre política, economia, música, esse post é sobre realização. Na virada desse ano, meu pai disse para mim que esse ano, de acordo com estudos cabalísticos seria o ano da realização, pois representa o número 3 (2010 – 2+0+1+0= 3). Não levei muito em conta o que ele disse, nós jovens somos um tanto extremistas quanto a crer em determinada coisa que não tem explicação lógica.
E passou janeiro e parte de fevereiro e, nesses quarenta e cinco dias, tive duas grandes notícias: a primeira é que o Jamil e a Hermínia não serão os únicos titios ou titias do blog, terei um sobrinho para ensinar violão, torcer pelo Atlético, escutar Bezerra, ler Le Monde Diplomatique, ensinar a história dos países latino-americanos. A segunda notícia é que consegui, mesmo sem retomar os estudos do cursinho, ser aprovado no vestibular de Direito da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo. Estou fazendo as malas, com o coração na mão pela família, os amigos, o time, a minha vida inteira que foi resumida pelos ares gelados da capital social Curitiba. Ainda bem que essa mudança não impede minha participação nesse blog.
Gostaria de desejar a todos essa realização, aproveitem, o ano ainda está no começo.
Categoria:
comemorações,
divagações
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Um Livro de Sucessos
"O Fio da Navalha" - W. Somerset Maugham
Literatura que prende a atenção. Esse livro, seja quando o autor/narrador descreve a mobília da casa de um nobre do início do século passado, seja descrevendo um quadro de modernistas, na época considerados extremamente avançados, seja ao tentar exprimir o Absoluto em palavras, sempre nos deixa com olhos grudados em suas páginas.
O livro, supostamente, uma adaptação de pedaços da vida do autor, conta a história de um piloto de guerra americano que, ao voltar da Primeira Guerra Mundial, se vê numa crise existencial. Não daquelas em que se busca perder a vida, pelo contrário, Larry, como Maugham chama o ex-aviador, busca implacavelmente significado na vida. Ora atrás de Deus, ora atrás de conhecimento contínuo, ou ainda perseguindo a iluminação.
O principal personagem, que surge após mais de dez páginas do romance e é citado em intervalos não regulares, passa por transformações grandiosas, sempre no plano espiritual, enquanto as outras pessoas mencionadas no romance sofrem por sua exacerbada preocupação com o material. O autor, que se apresenta como narrador, avisa no início que não se tratava de um romance, o que torna a jornada de Larry ainda mais impressionante (mesmo não sendo exatamente como na vida real).
Citações de ensinamentos hindus, meditações e um pouco da cultura de yoguis indianos antecipam o interesse que se sucedeu no ocidente pela cultura oriental, mais especificamente pela parte espiritual. O alcance da chamada 'iluminação' por Larry mostra, numa descrição muito bem trabalhada, apesar de o autor achar que não é a precisa definição do acontecimento, as sensações que se passam por quem atinge o 'sublime'.
Fica a dica para quem quer ler, ou leu, de assistir o filme desse post, no qual o protagonista experimenta situações similares às de Larry, nesse romance. E, quanto ao título, quem chega ao fim do livro, descobre o que quer dizer.
Literatura que prende a atenção. Esse livro, seja quando o autor/narrador descreve a mobília da casa de um nobre do início do século passado, seja descrevendo um quadro de modernistas, na época considerados extremamente avançados, seja ao tentar exprimir o Absoluto em palavras, sempre nos deixa com olhos grudados em suas páginas.
O livro, supostamente, uma adaptação de pedaços da vida do autor, conta a história de um piloto de guerra americano que, ao voltar da Primeira Guerra Mundial, se vê numa crise existencial. Não daquelas em que se busca perder a vida, pelo contrário, Larry, como Maugham chama o ex-aviador, busca implacavelmente significado na vida. Ora atrás de Deus, ora atrás de conhecimento contínuo, ou ainda perseguindo a iluminação.
O principal personagem, que surge após mais de dez páginas do romance e é citado em intervalos não regulares, passa por transformações grandiosas, sempre no plano espiritual, enquanto as outras pessoas mencionadas no romance sofrem por sua exacerbada preocupação com o material. O autor, que se apresenta como narrador, avisa no início que não se tratava de um romance, o que torna a jornada de Larry ainda mais impressionante (mesmo não sendo exatamente como na vida real).
Citações de ensinamentos hindus, meditações e um pouco da cultura de yoguis indianos antecipam o interesse que se sucedeu no ocidente pela cultura oriental, mais especificamente pela parte espiritual. O alcance da chamada 'iluminação' por Larry mostra, numa descrição muito bem trabalhada, apesar de o autor achar que não é a precisa definição do acontecimento, as sensações que se passam por quem atinge o 'sublime'.
Fica a dica para quem quer ler, ou leu, de assistir o filme desse post, no qual o protagonista experimenta situações similares às de Larry, nesse romance. E, quanto ao título, quem chega ao fim do livro, descobre o que quer dizer.
Categoria:
dicas,
literatura
sábado, 6 de fevereiro de 2010
“Vaidade, Meu Pecado Favorito”
“O Advogado do Diabo” - Taylor Hackford
Se teve um filme que mudou a minha vida, foi o Advogado do Diabo. Eu reassisti – quando vi pela primeira vez era muito novo pra entender o filme – bem na época de transição de escolha entre Engenharia e Direito, que não por acaso acabou sendo meu veredicto.
O filme conta a história de Kevin Lomax, um jovem e brilhante advogado de uma pequena cidade na Flórida que nunca perdera um caso sequer. Kevin é o típico caso de corrupção financeira. Começa a carreira como promotor - tendo sucesso em todas as acusações-, mas acaba usando seu talento na defesa de grandes corporativistas cujos honorários o convenceram.
Ele se muda para Nova Iorque contratado pela maior empresa de advocacia da cidade, que pertence a John Milton – magnanimamente interpretado por Al Pacino -, mesmo contra a vontade de sua mãe, uma católica fervorosa que compara a Big Apple à babilônia. Com o tempo o jovem advogado acaba cada vez mais se distanciando de sua esposa e se afundando num caso de triplo assassinato. Mas mesmo com todos os problemas, curiosamente John, seu patrão, sempre tem uma solução. Se eu disser mais, acabo com o suspense e com as reviravoltas do enredo.
O final é surpreendente, magistral, digno deste grande filme. A atuação do Al Pacino é de dar calafrios e os diálogos de humor – extremamente refinados, por sinal - do seu personagem são simplesmente memoráveis. Diversas citações do filme – como o título deste texto – são dignas de ficar na ponta da língua dos maiores cinéfilos. Enfim, é um dos meus filmes favoritos disparado. Espero que se torne um dos seus também.
Se teve um filme que mudou a minha vida, foi o Advogado do Diabo. Eu reassisti – quando vi pela primeira vez era muito novo pra entender o filme – bem na época de transição de escolha entre Engenharia e Direito, que não por acaso acabou sendo meu veredicto.
O filme conta a história de Kevin Lomax, um jovem e brilhante advogado de uma pequena cidade na Flórida que nunca perdera um caso sequer. Kevin é o típico caso de corrupção financeira. Começa a carreira como promotor - tendo sucesso em todas as acusações-, mas acaba usando seu talento na defesa de grandes corporativistas cujos honorários o convenceram.
Ele se muda para Nova Iorque contratado pela maior empresa de advocacia da cidade, que pertence a John Milton – magnanimamente interpretado por Al Pacino -, mesmo contra a vontade de sua mãe, uma católica fervorosa que compara a Big Apple à babilônia. Com o tempo o jovem advogado acaba cada vez mais se distanciando de sua esposa e se afundando num caso de triplo assassinato. Mas mesmo com todos os problemas, curiosamente John, seu patrão, sempre tem uma solução. Se eu disser mais, acabo com o suspense e com as reviravoltas do enredo.
O final é surpreendente, magistral, digno deste grande filme. A atuação do Al Pacino é de dar calafrios e os diálogos de humor – extremamente refinados, por sinal - do seu personagem são simplesmente memoráveis. Diversas citações do filme – como o título deste texto – são dignas de ficar na ponta da língua dos maiores cinéfilos. Enfim, é um dos meus filmes favoritos disparado. Espero que se torne um dos seus também.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
"Naturally Born, Born Bad"
"Assassinos por Natureza" - Oliver Stone
"Natural Born Killers" (nome original) é um filme perturbador. No sentido bom, ou melhor, no sentido visual, ou melhor, no sentido estético. Enfim, é um filme que não nos deixa relaxar, nos tira do conforto, nos força a vista e a cabeça, exercita nosso senso de nojo. Tudo no bom sentido.
O filme conta a história de vida de um casal de serial-killers que vagam pela rota 666, nos Estados Unidos, e por lá causam o maior terror. Só que, para dar um ar de profundidade além da análise psicológica dos dois (que possuem problemas familiares, pouco senso de preservação da vida, entre outros problemas), acompanhamos as façanhas de outros dois marcantes personagens: um repórter maluco, sedento por audiência e que, para consegui-la, se dispõe dos métodos mais grotescos da mídia; e um policial, não menos louco, que investiga o casal Knox, criando por Mallory, a esposa, uma relação de obsessão/amor platônico/ódio mortal.
Além da trama absurdamente viajada, que culmina com um caos inesperado e de fim menos previsível ainda, temos, na parte visual do filme, a grande atração. Com um aspecto meio psicodélico ao extremo, meio perturbador, como numa mente psicopata, meio grotesco (com a mão de Tarantino, claro), com flashes sinistros, a fotografia do filme é de tirar do sério. A trilha sonora não deixa por menos, também, com nomes variados: de Piaf a Lou Reed, de Rage Against the Machine a Juliette Lewis (atriz que interpreta Mallory Knox).
Recomendadíssimo para quem gosta de ver coisas diferentes, não tem nojo de cenas sangrentas, gosta de uma história de amor totalmente fora dos eixos e adora uma boa crítica (no caso, à mídia). Só não me xingue depois de assistir por ter ficado perturbado. Aqui, o trailer.
"Natural Born Killers" (nome original) é um filme perturbador. No sentido bom, ou melhor, no sentido visual, ou melhor, no sentido estético. Enfim, é um filme que não nos deixa relaxar, nos tira do conforto, nos força a vista e a cabeça, exercita nosso senso de nojo. Tudo no bom sentido.
O filme conta a história de vida de um casal de serial-killers que vagam pela rota 666, nos Estados Unidos, e por lá causam o maior terror. Só que, para dar um ar de profundidade além da análise psicológica dos dois (que possuem problemas familiares, pouco senso de preservação da vida, entre outros problemas), acompanhamos as façanhas de outros dois marcantes personagens: um repórter maluco, sedento por audiência e que, para consegui-la, se dispõe dos métodos mais grotescos da mídia; e um policial, não menos louco, que investiga o casal Knox, criando por Mallory, a esposa, uma relação de obsessão/amor platônico/ódio mortal.
Além da trama absurdamente viajada, que culmina com um caos inesperado e de fim menos previsível ainda, temos, na parte visual do filme, a grande atração. Com um aspecto meio psicodélico ao extremo, meio perturbador, como numa mente psicopata, meio grotesco (com a mão de Tarantino, claro), com flashes sinistros, a fotografia do filme é de tirar do sério. A trilha sonora não deixa por menos, também, com nomes variados: de Piaf a Lou Reed, de Rage Against the Machine a Juliette Lewis (atriz que interpreta Mallory Knox).
Recomendadíssimo para quem gosta de ver coisas diferentes, não tem nojo de cenas sangrentas, gosta de uma história de amor totalmente fora dos eixos e adora uma boa crítica (no caso, à mídia). Só não me xingue depois de assistir por ter ficado perturbado. Aqui, o trailer.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Obviedades Não Tão Óbvias
Pra ser sincera, sempre achei ridículo aquele apelo hollywoodiano para finais felizes, comoção da platéia. Até hoje. Estava no cinema, programinha típico de curitibano que não sabe direito quais estações vão dar as caras no dia, então vai pra um lugar fechado e climatizado. Eu tava louca pra ver aquele filme sobre o Nelson Mandela, sabe, “Invictus”? Ainda mais por que era um drama. Não sei vocês lembram daquele post em que eu falei sobre as olimpíadas aqui no Brasil, xingando todo mundo, falando que o país mal tinha dinheiro pra educação e ia ficar investindo em infra-estrutura, etc. Tanto a minha opinião sobre finais felizes quanto sobre 2016 mudou depois daquele filme.
Parafraseando o Pedro, como humanos não podemos aceitar certas injustiças, como o racismo exposto no filme. Não é segredo pra ninguém que o Apartheid foi uma atrocidade moral, política e social. Situações como esta são pontos delicados a serem explorados emocionalmente, tanto que não vejo muitos filmes expondo polêmicas do tipo tão freqüentemente. É muito mais fácil agradar a todos com filmes sobre cachorrinhos, casais em crise que superam seus problemas, aquilo de sempre. Confesso que adoro muitos desses filmes, tanto eles não são inferiores por não serem politizados.
A epifania veio ao ver como Mandela utilizou o esporte para unir a população tão segregada, como o rugby foi usado de forma engenhosa para fazer o povo ter esperança. Não só os brancos conseguiram amenizar a herança política do apartheid, diminuindo os efeitos do racismo espalhado pela sociedade, quanto os negros tiveram uma bela lição sobre o perdão e a caridade. Não podemos ser ingênuos e acreditar que a Copa de Rugby de 95 foi a solução para todos os problemas da África do Sul, mas olhe, que isso pode ser utilizado como um grande exemplo de otimismo bem aplicado, pode.
Como é difícil esperar o bem das pessoas, ser crítico e hipócrita ao analisar terceiros é muito mais fácil! O otimismo às vezes é irritante, mas penso que se bem balanceado com o pessimismo, as coisas andariam bem : sem ingenuidades mas também sem ceticismos. Hipócritas todos somos, isso não podemos negar. Somos tão abertos para teorias políticas, religiões, todos somos irmãos nesse mundo supranacional, não existe mais inferioridade racial; mas, ao mesmo tempo, somo conservadores nas pautas morais (ninguém aceita de boa ver um cara correndo peladão na rua), no relacionamento com as pessoas mais próximas, na educação (nos submetemos às tradicionais provas, mesmo sabendo que nenhuma avaliação é justa). Eu mesma, estudo em uma faculdade federal sem concordar com a política do governo atuante.
Sim, sim,certas situações envolvem a questão do respeito além do conservadorismo. Mas é fato: a hipocrisia é profundamente cravada no dia-a-dia da sociedade. A questão é se existe um uso inocente dela ou não. Para aqueles que acreditam que sim, nada como uma visão otimista da vida, mas será que devemos relativizar algo tão exato como a descrição dessa incoerência comportamental? No entanto, é comum encontrar pessoas como eu que tendem a esperar o pior dos outros, desconfiar de tudo, o mais fácil a fazer, não me orgulho disso. Não que isso demonstre um senso crítico aguçado, afinal penso que é fácil ser crítico com tudo, mas difícil ser crítico com as coisas certas.
Parafraseando o Pedro, como humanos não podemos aceitar certas injustiças, como o racismo exposto no filme. Não é segredo pra ninguém que o Apartheid foi uma atrocidade moral, política e social. Situações como esta são pontos delicados a serem explorados emocionalmente, tanto que não vejo muitos filmes expondo polêmicas do tipo tão freqüentemente. É muito mais fácil agradar a todos com filmes sobre cachorrinhos, casais em crise que superam seus problemas, aquilo de sempre. Confesso que adoro muitos desses filmes, tanto eles não são inferiores por não serem politizados.
A epifania veio ao ver como Mandela utilizou o esporte para unir a população tão segregada, como o rugby foi usado de forma engenhosa para fazer o povo ter esperança. Não só os brancos conseguiram amenizar a herança política do apartheid, diminuindo os efeitos do racismo espalhado pela sociedade, quanto os negros tiveram uma bela lição sobre o perdão e a caridade. Não podemos ser ingênuos e acreditar que a Copa de Rugby de 95 foi a solução para todos os problemas da África do Sul, mas olhe, que isso pode ser utilizado como um grande exemplo de otimismo bem aplicado, pode.
Como é difícil esperar o bem das pessoas, ser crítico e hipócrita ao analisar terceiros é muito mais fácil! O otimismo às vezes é irritante, mas penso que se bem balanceado com o pessimismo, as coisas andariam bem : sem ingenuidades mas também sem ceticismos. Hipócritas todos somos, isso não podemos negar. Somos tão abertos para teorias políticas, religiões, todos somos irmãos nesse mundo supranacional, não existe mais inferioridade racial; mas, ao mesmo tempo, somo conservadores nas pautas morais (ninguém aceita de boa ver um cara correndo peladão na rua), no relacionamento com as pessoas mais próximas, na educação (nos submetemos às tradicionais provas, mesmo sabendo que nenhuma avaliação é justa). Eu mesma, estudo em uma faculdade federal sem concordar com a política do governo atuante.
Sim, sim,certas situações envolvem a questão do respeito além do conservadorismo. Mas é fato: a hipocrisia é profundamente cravada no dia-a-dia da sociedade. A questão é se existe um uso inocente dela ou não. Para aqueles que acreditam que sim, nada como uma visão otimista da vida, mas será que devemos relativizar algo tão exato como a descrição dessa incoerência comportamental? No entanto, é comum encontrar pessoas como eu que tendem a esperar o pior dos outros, desconfiar de tudo, o mais fácil a fazer, não me orgulho disso. Não que isso demonstre um senso crítico aguçado, afinal penso que é fácil ser crítico com tudo, mas difícil ser crítico com as coisas certas.
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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Quanto Tempo o Tempo Tem
Assim como as transgressões à ordem vigente, as mudanças, sejam pequenas ou gigantescas, são instrumentos da nossa sobrevivência. Nossa espécie, mais especificamente falando, é a que mais busca balançar a poeira, digamos. Inovações tecnológicas, cortes de cabelo, mudança de guarda-roupas, enfim. Tudo em busca de uma visão diferente, de uma vida com sensações diferentes.
O tempo é o mais implacável dos agentes de mudança. Ao chegar no barbeiro, percebi como o tempo o castigou, tornando-o mais uma vítima. Antes, um senhor simpátissíssimo, falante, sorridente. Hoje, um senhor mais pálido, aparência de desânimo, de cansaço. Digo isso porque também sofri muitas mudanças nesse curto tempo de vida: cortes de cabelo, barba, estilos, atitudes e comportamento. Parece um clichezão daqueles que passa no Fantástico, mostrando o antes e o depois. Mas não, aqui, a reflexão é mais do que a estética.
Muitas pessoas, ao alterarem sua aparência, têm juntamente um avanço (ou regresso) espiritual/intelectual. Não é via de regra, mas é fácil de se notar. Meus irmãos mais velhos, ao rasparem suas longas madeixas, pareceram, e não só esteticamente, mais responsáveis, donos de si. Talvez, ao fazer como eles (sim, raspei os cabelos), eu tenha procurado adiantar esse amadurecimento, forçar um pouco mais meu senso de adulto, digamos assim.
Voltando ao assunto do tempo e suas mudanças, a reflexão que tive ao passar pelo barbeiro foi de que, por mais que briguemos, as transformações, de todos os tipos, são inevitáveis. Apenas uma questão de (quem diria) tempo. E como essa queda da ficha é forte. Ao notarmos a fatalidade do tempo, que ainda nos é absoluto, em nossa condição de humanos com nossa tecnologia atual, é impossível não se sentir insignificante. É como se o titã Cronos nos olhasse e nos debochasse a cada dia e, com isso, tentamos mudar para que o titã não nzombe de nós novamente.
Pode parecer engraçado um piá como eu reclamando do tempo. Porém, todos, sem exceção, envelhecemos a cada dia. Não há pessoa capaz de me negar isso. E, mesmo assim, não temos como fugir da sensação de impotência. E isso, mesmo sendo eu daquela opinião de que tudo só é porque somos.
O tempo é o mais implacável dos agentes de mudança. Ao chegar no barbeiro, percebi como o tempo o castigou, tornando-o mais uma vítima. Antes, um senhor simpátissíssimo, falante, sorridente. Hoje, um senhor mais pálido, aparência de desânimo, de cansaço. Digo isso porque também sofri muitas mudanças nesse curto tempo de vida: cortes de cabelo, barba, estilos, atitudes e comportamento. Parece um clichezão daqueles que passa no Fantástico, mostrando o antes e o depois. Mas não, aqui, a reflexão é mais do que a estética.
Muitas pessoas, ao alterarem sua aparência, têm juntamente um avanço (ou regresso) espiritual/intelectual. Não é via de regra, mas é fácil de se notar. Meus irmãos mais velhos, ao rasparem suas longas madeixas, pareceram, e não só esteticamente, mais responsáveis, donos de si. Talvez, ao fazer como eles (sim, raspei os cabelos), eu tenha procurado adiantar esse amadurecimento, forçar um pouco mais meu senso de adulto, digamos assim.
Voltando ao assunto do tempo e suas mudanças, a reflexão que tive ao passar pelo barbeiro foi de que, por mais que briguemos, as transformações, de todos os tipos, são inevitáveis. Apenas uma questão de (quem diria) tempo. E como essa queda da ficha é forte. Ao notarmos a fatalidade do tempo, que ainda nos é absoluto, em nossa condição de humanos com nossa tecnologia atual, é impossível não se sentir insignificante. É como se o titã Cronos nos olhasse e nos debochasse a cada dia e, com isso, tentamos mudar para que o titã não nzombe de nós novamente.
Pode parecer engraçado um piá como eu reclamando do tempo. Porém, todos, sem exceção, envelhecemos a cada dia. Não há pessoa capaz de me negar isso. E, mesmo assim, não temos como fugir da sensação de impotência. E isso, mesmo sendo eu daquela opinião de que tudo só é porque somos.
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terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
"Brasil Likes it Heavy!"
Quando se consegue fazer música de boa qualidade, sonora e poética, ao mesmo tempo que se toca num volume altíssimo e se consegue botar a cabeça de quase 70 mil pessoas para bater, aí sim, pode-se dizer que há uma banda decente. O Metallica, com seus shows, em Porto Alegre e São Paulo, fez tudo isso e mais um pouco. Fui no do dia 30, sábado, no Morumbi, em São Paulo, e posso dizer, que quando James Hetfield disse "Brasil likes it heavy", ele tava certo.
Só pelo começo, com "Creeping Death" e "For Whom the Bell Tolls", do segundo disco da banda, já se sabia que o Metallica não estava de brincadeira e veio fazer o mais puro heavy/thrash metal. Sem sair da linha antiga e rápida da banda, a canção seguinte foi a "galopante" "The Four Horsemen", seguida de um show de pirotecnia com "Harvester of Sorrow". Para arrematar de vez os que já eram fãs da banda, "Fade to Black" foi executada com primazia. Muitas das canções tocadas foram executadas com uma pausa no meio, na qual as luzes do palco de ligavam e se percebia a euforia e excitação dos 68 mil headbanger presentes.
Após esse setlist clássico, Metallica apresentou, sem nenhum declínio na qualidade ou na sonoridade, canções do álbum mais novo, "Death Magnetic". "That Was Just Your Life", "The End of the Line", o novo clássico da banda "The Day that Never Comes" e a agressiva "Broken, Beat & Scarred".
Em seguida, mais clássicos pesados: "Sad But True", segundo Hetfiled antes da canção, uma homenagem ao Sepultura, banda de abertura do show, e ao povo brasileiro; "One", precedida de muitos fogos, luzes e barulhos de guerra; e "Enter Sandman" e seu riff inconfundível.
É claro que haveria um bis. Após ficarem alguns minutos fora do palco, Metallica voltou para tocar mais três sonzeiras. Começaram com uma homenagem a uma das bandas que os influenciaram: Queen. Um cover magnífico de "Stone Cold Crazy" levou a galera ao delírio. "Motorbreath", canção que retrata o estilo de vida do grupo, no seu início, foi tocada em seguida. Por último, a canção mais aguardada pelo público, mais pedida pelos quase 70 mil no estádio: "Seek and Destroy". Segundo Hetfield, todos gostamos dessa canção por sua letra fácil. Mas pode-se dizer que não apenas sua letra e seu refrão ("searching... seek and destroy!") é que fazem dessa, na minha opinião, a melhor canção do grupo, mas seus riffs acelerados e solos implacáveis também.
Enfim, o grupo, sempre no máximo do volume dos amplificadores, deixou muitos headbangers de pescoço dolorido e pingando de suor. Mas tudo por uma ótima causa: um som empolgante e de qualidade.
Só pelo começo, com "Creeping Death" e "For Whom the Bell Tolls", do segundo disco da banda, já se sabia que o Metallica não estava de brincadeira e veio fazer o mais puro heavy/thrash metal. Sem sair da linha antiga e rápida da banda, a canção seguinte foi a "galopante" "The Four Horsemen", seguida de um show de pirotecnia com "Harvester of Sorrow". Para arrematar de vez os que já eram fãs da banda, "Fade to Black" foi executada com primazia. Muitas das canções tocadas foram executadas com uma pausa no meio, na qual as luzes do palco de ligavam e se percebia a euforia e excitação dos 68 mil headbanger presentes.
Após esse setlist clássico, Metallica apresentou, sem nenhum declínio na qualidade ou na sonoridade, canções do álbum mais novo, "Death Magnetic". "That Was Just Your Life", "The End of the Line", o novo clássico da banda "The Day that Never Comes" e a agressiva "Broken, Beat & Scarred".
Em seguida, mais clássicos pesados: "Sad But True", segundo Hetfiled antes da canção, uma homenagem ao Sepultura, banda de abertura do show, e ao povo brasileiro; "One", precedida de muitos fogos, luzes e barulhos de guerra; e "Enter Sandman" e seu riff inconfundível.
É claro que haveria um bis. Após ficarem alguns minutos fora do palco, Metallica voltou para tocar mais três sonzeiras. Começaram com uma homenagem a uma das bandas que os influenciaram: Queen. Um cover magnífico de "Stone Cold Crazy" levou a galera ao delírio. "Motorbreath", canção que retrata o estilo de vida do grupo, no seu início, foi tocada em seguida. Por último, a canção mais aguardada pelo público, mais pedida pelos quase 70 mil no estádio: "Seek and Destroy". Segundo Hetfield, todos gostamos dessa canção por sua letra fácil. Mas pode-se dizer que não apenas sua letra e seu refrão ("searching... seek and destroy!") é que fazem dessa, na minha opinião, a melhor canção do grupo, mas seus riffs acelerados e solos implacáveis também.
Enfim, o grupo, sempre no máximo do volume dos amplificadores, deixou muitos headbangers de pescoço dolorido e pingando de suor. Mas tudo por uma ótima causa: um som empolgante e de qualidade.
Categoria:
música
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Bote o seu Gulliver pra Funcionar
"Laranja Mecânica" - Stanley Kubrick
O mesmo diretor que fez "O Iluminado" deu vida ao romance revolucionário de Anthony Burguess. Bem, é óbvio que o livro é sempre melhor do que o filme, justamente por dar mais margem para a interpretação de cada leitor. O filme já é um olhar sobre aquele livro, o que faz dele um tanto quanto restrito. Nem por isso a interpretação de Kubrick chega a ser explícita e mastigada: ela dá espaço para uma crítica absorção da trama. Taí porque o filme ficou tão bom!
O filme é de 71 (bem revolucionário para a época, quebra muitos tabus de hollywood),mas a história se passa em um futuro próximo, num mundo da ultraviolência, da pornografia liberada, da falta de regras e leis, da ausência de respeito para com os mais velhos e muito mais. Não chega a ser tão louco quanto o admirável mundo de Huxley, tendo até uma pitada de verossimilhança. O protagonista e seus "druguis" formaram uma gangue, e em meio aos estupros, saques, espancamentos e assaltos, misturam o inglês com o Nadsat, uma língua que mistura o inglês com o russo (outra parte genial do romance). Mas seus dias de farra acabam quando "lhe caiu os butiá do bolso", e o piazão é então preso.
Deposi disso que o filme começa a ficar intrigante: depois de dois anos cumprindo pena, oferecem a ele uma alternativa para sair mais rapidamente da prisão, um tratamento milagroso que o curaria de sua banditice. Mas como pau que nasce torto morre torto, o tratamento é uma furada, baseado em manipulação e falta de livre arbítrio. Para quem gosta de teorias da conspiração, histórias de governos autoritários que foram publicamente humilhados, manipulação e rebeldia, o filme é um prato cheio!
O mesmo diretor que fez "O Iluminado" deu vida ao romance revolucionário de Anthony Burguess. Bem, é óbvio que o livro é sempre melhor do que o filme, justamente por dar mais margem para a interpretação de cada leitor. O filme já é um olhar sobre aquele livro, o que faz dele um tanto quanto restrito. Nem por isso a interpretação de Kubrick chega a ser explícita e mastigada: ela dá espaço para uma crítica absorção da trama. Taí porque o filme ficou tão bom!
O filme é de 71 (bem revolucionário para a época, quebra muitos tabus de hollywood),mas a história se passa em um futuro próximo, num mundo da ultraviolência, da pornografia liberada, da falta de regras e leis, da ausência de respeito para com os mais velhos e muito mais. Não chega a ser tão louco quanto o admirável mundo de Huxley, tendo até uma pitada de verossimilhança. O protagonista e seus "druguis" formaram uma gangue, e em meio aos estupros, saques, espancamentos e assaltos, misturam o inglês com o Nadsat, uma língua que mistura o inglês com o russo (outra parte genial do romance). Mas seus dias de farra acabam quando "lhe caiu os butiá do bolso", e o piazão é então preso.
Deposi disso que o filme começa a ficar intrigante: depois de dois anos cumprindo pena, oferecem a ele uma alternativa para sair mais rapidamente da prisão, um tratamento milagroso que o curaria de sua banditice. Mas como pau que nasce torto morre torto, o tratamento é uma furada, baseado em manipulação e falta de livre arbítrio. Para quem gosta de teorias da conspiração, histórias de governos autoritários que foram publicamente humilhados, manipulação e rebeldia, o filme é um prato cheio!
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