terça-feira, 9 de março de 2010

A Derrota dos Na’vi

Como eu esperava – e torcia -, ontem na festa do Oscar as três únicas estatuetas do homenzinho dourado que o tão aclamado Avatar levou foram as óbvias: melhor fotografia, direção de arte e efeitos visuais. Bom, fotografia é meio controverso já que o filme em si tem pouca coisa real, logo as paisagens são mera computação gráfica, mas essa suposta derrota já bastou pra mim.

Você deve se perguntar por que tanto repúdio a um filme que você provavelmente viu e gostou. Bem, eu também vi e também gostei, mas o ponto não é esse. Avatar é um filme legal, revolucionário do ponto de vista gráfico, lindo em várias partes, mas só. A história, mesmo longa e um tanto maçante, é previsível! Eu já imaginava como ela ia terminar lá pela primeira hora e meia de filme. É um filme de fim-de-semana, um programa de lazer, não é um filme digno do Globo de Ouro de melhor filme que ele ganhou, por exemplo.

Além disso, várias das características de Pandora aparentemente não saíram da cabeça de James Cameron. São 3 as grandes acusações. Os plágios sobre Delgo, uma animação que foi um fracasso, os quadrinhos da Marvel Timespirit e Poul Anderson, um autor de ficção científica. Sobre Delgo, não acho que as acusações sejam muito contundentes. Avatar abrange diversos clichês e se inspira em animais reais, provavelmente eles beberam da mesma fonte. Se quiser checar pode ver essas nove fotos comparativas (I,II,III,IV,V,VI,VII,VIII e IX), além do trailer. Já Timespirit traz selvagens azuis que usam arco e flecha, que realmente se assemelham aos Na’vi, como pode ser observado aqui.

Quando se trata de Poul Anderson o buraco é mais embaixo. Ele escreveu um romance chamado “Call me Joe” em 57. Nele o personagem principal é um paraplégico, Ed Anglesy, que se conecta telepaticamente a uma forma artifical de vida para explorar um planeta inóspito. Com o desenvolver da história, Ed se encanta pela liberdade e a força do seu novo corpo e vai se tornando nativo com o passar do tempo. Além disso, uma outra obra de Anderson se chama “O Avatar”. Coincidência? Não cabe a mim decidir. A mim só cabe comemorar pela sanidade da academia.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Filosofia por Necessidade

Como no texto "Humildes Meditações", no qual critico a falta de ouvintes e a desvalorização do filósofo, venho aqui expressar outra indignação relacionada a esses assuntos: o pouco caso com a disciplina de Filosofia e seu ensino nas escolas de nosso país.

Curso engenharia na UTFPR, porém, por diversão e por gosto, resolvi cursar uma cadeira na minha grade que seria uma matéria optativa, Filosofia da Ciência e da Tecnologia. Resumindo a ementa, estudaremos a origem e os tipos de conhecimento gerados pelo homem e suas conseqüências, principalmente do conhecimento científico. Tivemos sorte pelo professor ser um filósofo real (finalmente!) com experiência no ensino da matéria.

Enfim, entramos numa discussão na primeira aula que abordava as experiências anteriores que tivemos com a filosofia. Logo percebi que eu era uma das exceções. A grande maioria da sala (uns 35, 40 alunos da área da tecnologia) tinha trauma, até desgosto pela disciplina. Posso dizer que meu primeiro contato também não foi dos melhores. Porém, o simples fato de ter sido introduzido no assunto fim do ensino fundamental e no início do médio, foi o suficiente para atiçar minha curiosidade e, conseqüentemente, meu gosto.

O professor, então, disse que a matéria havia sido abolida das escolas durante a Ditadura, só voltando nos anos 90. Porém, esse hiato não foi apenas no ensino e formação de novos cidadãos, mas também na formação de profissionais de ensino da área. Daí tiramos que a probabilidade de, nos anos 90 e até a pouco tempo atrás, se ter um professor de Filosofia mal preparado era alta. Inclusive, em muitas instituições, por falta de professores da área, quem ministrava essa disciplina era um teólogo ou um professor de história.

Gostaria de deixar no ar o seguinte pensamento: precisamos difundir mais os usos da filosofia se queremos ser um país melhor. Por quê? Poucas pessoas se interessam a nível profissional pelo assunto, daí tiramos escassez de educadores da área. Com isso, poucas pessoas são educadas com um básico da disciplina. O que tiramos disso? Poucos questionadores por natureza, poucos desconfiadores. Pois se tem uma coisa que aprendemos na filosofia é que o mundo cresce não com respostas, mas com questionamentos. E um país conformado com as respostas não vai pra frente.

domingo, 7 de março de 2010

Mímica e Música

Ah, os covers. Uma maneira legal de prestar tributo a uma banda ou artista que influenciou seu trabalho de uma maneira absurda. Uma grande parte dos maiores artistas que já passaram por essas bandas que chamamos de planeta Terra já gravou covers. De Beatles a Fall Out Boy. De Hendrix a Guns N’ Roses. O problema é que existem dois tipos de covers: os bem e os mal feitos. Existem covers que nada se parecem com os originais, que até são de estilos diferentes, que acrescentam à original, que entraram pra história. Existem covers que conseguem simplesmente destruir e ainda por cima se tornar mais famosos que os originais.

Como bons covers temos vários exemplos. “All Along the Watchtower” do Jimi Hendrix é mais animada e mais caótica que a original no violão de Bob Dylan. “Stand by me” do John Lennon, apesar de parecida com a original, tem uma levada muito mais cativante que a do Ben E. King. “Twist and Shout” do Beatles é bem mais divertida que a dos Isley Brothers. Falando em Beatles, “With a Little Help from my Friends”, que era uma música somente bonitinha, ganhou uma poder avassalador na voz do Joe Cocker. “I’m a Believer”, que é do Monkees, ganhou muito mais fãs com a versão mais moderna do Smash Mouth. “You Really Got Me” do Yardbirds era pesada para sua época, mas não se compara com a versão do Van Halen e“Beat It” original na voz do Michael Jackson é incrível, mas a versão do Fall Out Boy supera espectativas.

Mas nem tudo são flores no mundo da música. As desgraças que aparecem de vez em quando na mídia são lastimáveis. “Behind Blue Eyes” é um hino criado pelo The Who e foi desrtuída – e amputada, já que no final da original as guitarras entram a todo vapor quebrando o clima melódico – pelo Limp Bizkit. “I Love Rock N’ Roll” da Joan Jett era um hino, da Britney Spears é pura hipocrisia. Tem umas que não são tão ruins, mas que não me agradam como “Born to be Wild” do Steppenwolf na velocidade e peso do Slayer ou “Knockin’ on Heaven’s Doors” do Bob Dylan sendo gritada histericamente pelo Axl Rose do Guns N’ Roses.

E o Brasil também não escapa dessa. Sejam covers de músicas brasileiras, sejam traduções de músicas internacionais. Eu já falei no post dos Paralamas, mas “Lourinha Bombril” é um versão nacional de “Parate y Mira” do Los Pericos. Mas o que eu não falei no post dos Titãs – pelo simples fato de que descobri isso recentemente – foi que “Marvin” na verdade é uma versão brazuca de “Patches” do Clarence Carter. Outra célebres versões é “Não Chores Mais” que é baseada em “Woman No Cry” do Bob Marley , “O Passageiro” do Capital, que foi feita à base de “The Passenger” da banda punk The Stooges e “Sônia” do Léo Jaime que veio de “Sunny” do Bobby Hebb. Mas como disse antes, também temos covers e versões de canções brasileiras como “Primeiros Erros” do Kiko Zambianchi na voz do Capital, “Além do Horizonte” do Roberto Carlos na voz do Jota Quest, a versão roqueira de “Malandragem” do Bezerra na versão do Barão Vermelho, “É Proibido Fumar” e “Vamos Fugir”, respectivamente do Erasmo Carlos e do Gilberto Gil, ambas na voz do Skank e as versões de “Aluga-se”, do Raul Seixas, e “É Preciso Saber Viver”, do rei Roberto Carlos, na visão dos Titãs.

Por fim, um destaque para a banda norte-americana Weird Al Yancovic que transformou sucessos como “Bad” do Michael Jackson, “Eye os the Tiger” do Survivor e “Barbie Girl” do Aqua em “Fat”, “Rye and the Kaiser” e “I’m an Ugly Girl”, respectivamente, isso pra citar alguns. As letras satíricas são extremamente recomendáveis, só não venha reclamar se eles parodiaram o seu artista favorito.

sábado, 6 de março de 2010

Os Não tão Mais de Esquerda?




Cheguei uma conclusão nessa semana ao ver José Mujica assumir a presidência do Uruguai: A idade vai acalmando o fervor ideológico. Quer melhor exemplo nacional que o nosso presidente Lula? Será que aquele Lula abertamente contra o pagamento da dívida externa, contra a ALCA, iria se eleger em 2002? José Mujica fazia parte do grupo Tupamaros, milícia que fazia frente à Ditadura Militar Uruguaia. Naquela época, como o MR-8 no Brasil e os Montoneros na Argentina, o grupo combatia o governo vigente por meio de atentados, roubos a banco, etc. Hoje, Mujica promove planos similares aos novos ícones políticos da América do Sul (Chávez, Evo Morales, Fernando Lugo), um plano que visa o equilíbrio das classes sociais do país. Um governo para os pobres, um populismo moderno.

Como amadureceu a idéia de revolução desse idoso agricultor que já foi Ministro da Agricultura, da Pecuária e da Pesca, além de deputado. Lula nunca pegou em armas para lutar contra a ditadura. Nessa época, ainda estava chegando a São Paulo para daí comparecer às greves dos metalúrgicos do ABC paulista e apanhar da polícia. Porém, não foi menos ideário de planos extremistas para melhorar o país, e como vimos, esse Lula mudou. Até o, hoje sereno, José Serra era presidente da UNE (União Nacional Estudantil) e fugiu da Ditadura de helicóptero, exilando-se na Bolívia. Agora é candidato do PSDB à presidência.

Agora, gostaria de enfocar uma questão que discutia com meus colegas: Dilma ganha ou não ganha? A reposta, mais do que óbvia, é depende. Qual imagem dela que prevalecerá: a mulher que é filha de um búlgaro comunista, que participou do POLOP (Política Operária), do COLINA (Comando de Libertação Nacional), que participou do assalto ao Banco da Lavoura de Sabará, do COLINA/VPR (futura Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares), que ainda traçou o plano do roubo à casa de praia do político Adhemar de Barros e depois foi presa em São Paulo, armada, e delatou o companheiro Natael Custódio Barbosa ao DOI-CODI?

Ou será vista como a Dilma que continuará a próspera política de Lula, a mulher que poderá ser a primeira a ser Presidente da República, a guerreira que venceu um câncer, a nova embaixatriz dos Direitos Humanos, a desbravadora do PAC, uma patriota, acima de tudo?

É claro que Dilma não é mais aquela guerrilheira extremista. Ela amadureceu, provou a responsabilidade de representar 190 milhões de brasileiros. Porém, qual a imagem que o povo brasileiro terá dela? Em outubro, saberemos...

sexta-feira, 5 de março de 2010

“A Long Time ago, in a Galaxy Far, Far Away...”

“Star Wars” – George Lucas

Se teve um filme que conseguiu uma legião de fãs incondicionais, que não se restringiu às telas do cinema , que mesmo com uma história um tanto clichê conseguiu revolucionar toda uma geração, esse filme foi “Star Wars – Uma Nova Esperança”, lançado em 77. Graças ao sucesso, acabou-se completando a Trilogia com os 2º e o 3º episódios, “O Império Contra-ataca” e “O Retorno do Jedi”. Mas uma trilogia não bastava para saciar os fãs e uma nova trilogia iniciou-se em 99 com “A Ameaça Fantasma”, seguida por “O Ataque dos Clones” e “A Vingança dos Sith”. Essa, porém, teria o papel de contar o que aconteceu nos momentos que antecederam a trilogia clássica.

A história da saga retrata a depredação do jovem Anakin Skywalker até se tornar Darth Vader. Mostra como o amor é capaz de todas as coisas, até mesmo de se auto-destruir. Vendo os 6 filmes seguidos, essa linha fica evidente. Anakin era o escolhido pra salvar tudo e todos, mas acabou sendo induzido a ir pro lado negro da força para, justamente, salvar sua amada - e justo essa atitude a matou de desgosto. Desolado com a vida, com a incapabilidade de mudar o destino – já que a razão de ele ter ido para o lado dos Sith foi impedir a morte de Padmé, prevista em sonho -, ele se torna cruel e cria um império submisso aos seus caprichos. Porém, quando ele descobre que os frutos do seu amor – Luke e Leia - estavam vivos, se converte para o bem novamente e se rebela contra Darth Sidious – que fez as vezes de serpente do Jardim do Éden futurista -, que o levou para o mal, pra começo de conversa.

Além dessa história contagiante, contamos com um dos maiores vilões de toda a história do cinema. Mas Darth Vader não é ‘o’ vilão por ser simplesmente mal – afinal, no episódio VI ele prova que era bom no fim das contas -, mas sim por ser quase mitológico. Darth tem tudo, é carismático, parodiável, tem postura de vilão. Outra coisa, Star Wars não virou clássico por ter roteiro incrível e atuações fabulosas, mas sim por ser um universo completamente novo. Cada Jedi que fez uma aparição coadjuvante em um filme da segunda trilogia tem uma história própria - e bem longa, por sinal – criada por fãs ou baseada nas histórias alternativas.

E a saga reúne algumas várias curiosidades interessantes. “Darth Vader” na verdade é uma variação de “Dark Father” fazendo uma alusão ao parentesco entre ele e Luke Skywalker. Aliás, Skywalker era pra ser Starkiller, mas Anakin Starkiller não soava muito bem aos ouvidos de George Lucas. A roupa de Darth Vader é baseada nas armaduras samurais – a armadura que influenciou a roupa se encontra no castelo de Himeji (Japão), por sinal – entre tantos outros causos.

Enfim, é uma saga maravilhosa e que angaria fãs pelo mundo todo a cada geração que passa. Mesmo que mais filmes não sejam produzidos, a história não pára de se expandir. Seja contando a era pré-“Ameaça Fantasma”, seja contando a era pós-“Retorno do Jedi”. Jogos, quadrinhos, fanfics, livros, seriados, enfim, tudo o que é possível imaginar. O universo de Star Wars - como é chamado – alcançou proporções extraordinárias. Pode até se equiparar ao que os livros do Senhor dos Anéis fizeram e fazem até hoje. Se alguém se interessar pode encontrar ótimos sites – normalmente em inglês – sobre essa maravilhosa ficção. Que a força esteja com vocês.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Gente como a Gente

Tem gente que canta sem saber por quê.
Tem gente que bebe pra poder esquecer.
Tem gente que mata pra sobreviver.
Tem gente que é fútil e se diz blasé.

Tem gente que é louco e se diz são.
Tem gente que rouba, mas diz que não.
Tem gente que faz tudo pra ganhar um milhão.
Tem gente guitarra, tem gente violão.

Tem gente que dança pra poder fugir.
Tem gente que engana pra se redimir.
Tem gente que é bomba, só falta explodir.
Tem gente que é vaca, só falta mugir.

Tem gente que arranha pra poder marcar.
Tem gente que apanha pra continuar.
Tem gente que ama pra poder lembrar.
Tem gente que lembra pra poder amar.

Tem gente esperta que parece demente.
Tem gente que está sempre um passo à frente.
Tem gente igual e tem diferente.
Tem gente que é gente, assim como a gente.

Duplo, sem Gelo

Um copo de uísque. Tudo o que eu preciso nesse momento. Nada melhor pra aliviar a carga de 2 empregos e uma dúzia de trabalhos atrasados. Ah, aquele líquido amargo irritando o fundo da minha língua, queimando meu esôfago, descansando inquieto no meu estômago. Sentimento aconchegante.

Pessoas pensam que sou de ferro, incansável. Isso quando há olhos em mim. Não, não fico sentado, fraco e deprimido quando só, pelo contrário! Nessas horas encontro a melhor e mais alegre das companhias: eu mesmo. Preciso de algo mais? Talvez de um copo de uísque.

Um copo de uísque. Atalho intensivo para a euforia alcoólica. Mas não vejo muitas semelhanças com a embriaguez de outras bebidas. Um "quê" de força, de maturidade enche o copo, sem gelo, claro, e toma posse de meus neurônios.

Sou responsável, confiável. Especialmente nas ressacas, tanto físicas quanto morais. Claro que não abuso, não sou ignorante! Aliás, a leve palpitação na testa me faz sentir mais vivo ao contornar problemas e gerir soluções. Além disso, ajuda muito aquele café preto com um lanche reforçado pela manhã. Na noite anterior? Um copo de uísque.

Um ode ao infame e maldito álcool, e um desabafo sobre a existência humana.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Ler É Negócio Muito Perigoso

Grande Sertão: Veredas - João Guimarães Rosa

Donada. Daí surge o que é considerado por muitos o maior romance da história da língua portuguesa, e um dois maiores do mundo. Como dito por alguns estudiosos, o livro é uma história de um fôlego só, um único ímpeto. E não precisava mais. Enquanto eu lutava e brincava com as palavras de Rosa, pude, na minha limitada capacidade, me impressionar como nunca antes com um romance. Vou tentar expor parte do que apreendi dessa obra, mesmo sabendo que a cada dia que passa e a cada experiência que ganho, teria mais chance de absorver cada vez mais dessa história.

O livro nada mais é do que um relato de histórias de vida de um sertanejo, Riobaldo, para um ouvinte fiel (e silencioso) da cidade grande. Nascido numa família relativamente de classe média (para o sertão do norte de Minas Gerais) no começo do século passado. Riobaldo teve uma chance que poucos conseguiram naquela região naquela época, ser educado. Com isso, teve oportunidades boas como ser tutor do fazendeiro Zé Bebelo. Daí sai o início da vida de jagunço de Tatarana (apelido de Riobaldo). Nesse meio, ele reencontra um amigo de infância, Diadorim, que entrou no "ramo" por causa de seu pai, Joca Ramiro. Após o assassinato desse por Hermógenes, Diadorim se recusa a abandonar a jagunçagem até vingar seu pai, o que vira um incômodo para Riobaldo, que nunca teve muito apreço por essa vida e por amar Diadorim.

Não quero me prender muito no enredo, até porque não me lembro das minúcias e por ele não ser linear, mas seguir o raciocínio do contador, Riobaldo. O que me interessa é fazer uma rápida reflexão sobre dois dos temas profundamente abordados no livro. Primeiramente, a recorrente menção do diabo no livro. Aparentemente, Riobaldo tem uma certa obsessão com a figura, talvez até um interesse meio obscuro. O fato de ele, desesperado por vingar Joca Ramiro por uma questão de honra, ir a uma encruzilhada e chamar o capeta pelo nome, acompanha a narrativa em todos os momentos. Porém, nunca fica claro se houve ou não o pacto. O protagonista vive se questionando sobre a existência do chifrudo e essa dicotomia diabo-não-diabo é um dos motores das histórias. Enfim, um dos temperos da obra é a constante idéia do "diabo na rua, no meio do redemoinho..." (para bons entendedores).

O outro tema que gostaria de abordar é o amor homoerótico de Riobaldo por Diadorim. Apaixonado, o protagonista constantemente conta a agonia de sua situação, na qual lhe era impossível divulgar seus sentimentos para o companheiro jagunço. Por esse amor, Riobaldo decide seguir atrás de Hermógenes, junto de Diadorim, e também acaba por tentar o pacto com o diabo. Mas as descrições das noites em que passavam juntos a uma fogueira, com os outros jagunços, são uns dos atrativos mais impressionantes da história.

É claro que a linguagem de Rosa no romance é, talvez, o aspecto mais discutido e repercutido da obra. Considerada uma daquelas impossíveis de serem traduzidas (embora tentativas foram feitas), Grande Sertão: Veredas tem na sua absurdamente trabalhada linguagem única do sertão uma universalidade absoluta. Tá, sem palavras feias, o livro, com sotaque nordestino, trata dos assuntos mais atemporais, universais. O ser humano e sua existência versus as divindades e sua aparente falta-de-existência; as noites em claro perdidas em pensamentos; o fascínio pelo extraterreno; etc. A idéia de sublimidade, na qual o homem deixa de ser homem e vira mundo, grande sertão ("o sertão é do tamanho do mundo"), é algo expresso de maneira linda.

Inúmeras citações seriam possivelmente as mais belas da literatura brasileira: "qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura."; "o senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais."; "o diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano.";... Enfim, resumindo tudo, segundo o próprio Guimarães Rosa, o livro é a constatação mais clara possível de que "viver é negócio muito perigoso".

terça-feira, 2 de março de 2010

Com Um Golpe de Caratê

Quem nunca ouviu a famosa frase do Governo Collor: “Vamos acabar com a inflação com um golpe de Caratê”. O povo acreditou, votou, porém esqueceu-se de perguntar como iria ser resolvido o problema da inflação. E aí, Zélia Cardoso de Mello, aquela que casou com o Chico Anísio, ministra de Collor, foi à TV e, sendo pouco compreendida pela pouca habilidade retórica, disse que iria confiscar as poupanças que possuíam mais de 50 mil Cruzados Novos. Quer algo mais impopular que confiscar as poupanças? O desespero popular, a pressa de cortar o mal pela raiz, trouxe legitimidade a um ato que prejudicou toda uma população. Quantos e quantos idosos perderam a aposentadoria nesse ato...

Relembrei desse fato histórico ao ver um insurgente candidato à presidência pelo PT do B. Um autêntico Legalista, um homem que busca governar pelo “império da lei”. Mário Oliveira, advogado, caiu nas graças da classe alta brasileira e dos militares que, por incrível que pareça, sentem saudade da ditadura ao propor medidas como a pena de morte, a redução da maioridade penal, a extinção do programa bolsa-família, o fim da reforma agrária, o fim das cotas. Gostaria de deixar a discussão se essas medidas são certas ou erradas para os comentários desse post.

O problema em fazer acontecer essas medidas é a existência de cláusulas-pétreas (um tipo de cláusula inalterável) na Constituição brasileira. Por exemplo, nem se o Congresso aprovar a lei e o presidente sancionar, a pena de morte pode ser aceita, pois uma dessas cláusulas-pétreas veda a implantação da pena de morte, só se elaborarem uma nova constituição. Só seria possível reduzir a maioridade penal, a pena de morte com uma nova Constituição. E para existir uma nova Carta Constitucional precisa existir apoio do Congresso Nacional (Câmara dos Deputados e Senado). Como um candidato do PT do B, um partido pequeno, vai ter apoio de, pelo menos, 2/3 do Legislativo Federal para uma nova Constituinte?

E é entregando o poder nas mãos desses que se consideram “salvadores” dos anseios da população que criamos um governo instável, desesperado, inconstitucional. No meio de tantos candidatos em 1990, um homem de um pequeno partido chamado PRN, que prometia mundos e fundos, o ”caçador de marajás”, que possuía um rosto bonito, foi o único presidente eleito da história do Brasil a sofrer Impeachment. Qualquer semelhança é pura coincidência.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Acordes Espaciais

Tenho que confessar que sou apaixonado por ficções científicas. Desde as Space Operas – histórias épicas e romantizadas de ficção científica –, como Star Wars e Blade Runner, até distopias mais reflexivas, como 1984, por exemplo. Outra coisa pela qual sou apaixonado é o bom e velho Rock N’Roll, mas isso vocês já devem estar carecas de saber. Agora, bom mesmo é ter essas duas coisas numa só.

A fusão entre rock e ficção é bem comum, várias bandas gravaram músicas e escolheram nomes baseados em livros, por exemplo, o Led Zeppelin tem diversas músicas baseadas em Senhor dos Anéis. Ou a banda gaúcha Os Replicantes que tirou o nome dos androides de Blade Runner. Porém as fusões entre Rock e ficção científica não são tão óbvias. A primeira que me vem à cabeça é “Space Truckin’” presente no álbum Machine Head do Deep Purple. A letra conta a história de desbravadores espaciais que viajam pelo sistema solar. Uma espécie de “EasyRider” espacial. E a música em si é legal, gostosa de ouvir, cantar e tocar. Inclusive, segundo Blackmore, o riff prnicipal é inspirado na música do batman.

Outra muito significante e extraordinária é a Ópera Rock “2112”(pts 1, 2 e 3) da banda canadense Rush. “2112” é um disco e uma faixa – que por sinal tem 20 minutos de duração – que é dividia em VII partes e ocupa um lado inteiro do álbum. A história da música começa no ano de 2062 quando uma guerra que abrange toda a galáxia resulta na união de todos os planetas sob o governo da estrela vermelha da Federação Solar. Em 2112, o mundo é controlado pelos sacerdotes dos templos de Siringe (Syrinx, no original), que determinam o conteúdo de todas matérias de leitura, músicas, imagens, enfim, tudo. Porém um homem acaba descobrindo um estranho instrumento, no caso uma extinta guitarra, e alcança novos paradigmas musicais.

Quando ele apresenta a descoberta aos sacerdotes, eles a destroem. O protagonista então vai para a clandestinidade, sonha com o mundo pré-unificação e quando desperta, pelo desespero de perceber que o mundo era bom, livre e que sua vida nunca poderia ser como a de seus antepassados, comete suicídio. Porém, inicia-se uma nova guerra que termina com a misteriosa – e ambígua – frase “attention all planets of the Solar Federation: We have assumed control.” Ambígua já que não se sabe se houve uma contra-revolução pra trazer de volta o mundo de antes ou se os sacerdotes tomaram o poder da federação e instauraram uma teocracia. Mas vai dizer, dava um filme, não?

E como sempre, a versão brasileira não fica de fora. “Ficção Científica” é umas das músicas do Aborto Elétrico (depois regravada pelo Capital Inicial em um disco-homenagem ao Aborto) que, por sinal, eu mais gosto. Ela não tem um história definida, é um apanhado de nomes e termos da ciência e da cultura pop como Flash Gordon, Barbarella, Bomba H, Albert Einstein, Julio Verne, Galileu, etc. Isso sem contar a parte musical que é irada, no sentido literal da palavra. Espero que com essas dicas, vocês acabem gostando de viajar pelo espaço ao som de guitarras distorcidas como eu gosto.