domingo, 31 de janeiro de 2010

A Terceira Dimensão

Estão chamando por aí Avatar 3D – super-produção ficcional que levou 12 anos pra ser produzida e custou cerca de 500 milhões de dólares – de o novo “O Vento Levou” – que foi o primeiro filme a cores direcionado pro público adulto. Dizem que a terceira dimensão foi um salto tão grande quanto à fala ou à cor pro cinema.

Eu era um pouco cético nesse sentido. Achava que o 3D acabaria deteriorando o cinema clássico em prol dos recursos visuais. Os produtores se preocupariam mais em jogar carros na direção dos espectadores do que no enredo, por exemplo. Elevaria o estágio de blockbuster, mas não dos filmes artísticos à la Tarantino e Scorcese.

Porém, lendo a Superinteressante de Fevereiro, que tem uma matéria sobre o assunto, fui perceber que o Hitchcock passou pela mudança de preto e branco para cores - que tecnicamente também é uma evolução meramente estética e superficial –, sobreviveu e continuou a fazer ótimos filmes!

Enfim, mudei minha opinião. Hoje, vejo que o 3D não vai “matar” o cinema de qualidade, mas sim apenas vai dar uma guaribada nas películas feitas pra vender e passar batido na qualidade dos filmes de enredo envolvente. Uma mera cereja num bolo requintado.

sábado, 30 de janeiro de 2010

"Organizamos a Vida de Tal Forma que Seja Quase Impossível Conhecê-la"

"Admirável Mundo Novo" - Aldous Huxley

Sabe aquele tipo de livro que você pega pra ler esperando muito, porque os outros falaram muito, mas quando você realmente lê vê que não era tudo isso? Então, aqui, isso não se aplica. Confuso? Espere até ler esse livro cheio de "fordezas", brinquedos eróticos para crianças, ausência de relações afetivas, família, romantismo, maternidade, religião, etc. Você se perde muito até pegar bem as novas regras do jogo. Mas eu posso afirmar, sem sombra de dúvida, foi um livro que mudou minha vida. Perceba como as coisas que vivemos aqui nessa lógica ocidental-mais-do-que-americanizada foram sempre assim. Sempre existiram famílias. Sempre existiram pautas morais. Sempre existiram os medos como axiomas, que herdamos de nossos pais. Só existiu uma única forma de continuar a existência da espécie. Imagine existir uma alternativa pra tudo isso. Pior, imagine criar essa alternativa antes da II Guerra. Depois dessa, virei fanzona do Huxley.

Vejamos: em 32 o homem não havia chegado à Lua; a Dolly ainda não tinha sido clonada; o LSD ( uma droga sintética) nem havia sido inventado; o cara nunca ouviu Beatles nem Frank Sinatra; o cinema 3D nem tinha imaginado em existir! Mesmo assim, Huxley já falava de drogas sintéticas; sucedâneos de paixão violenta e de gravidez (visto que as pessoas não podiam ficar com o mesmo parceiro por muito tempo, nem engravidar - os bebês eram todos clones); cinema cinéticos (onde você, ao apertar um botão, poderia sentir o que o ator estaria supostamente sentindo, ver a imagem em hologramas, e tudo mais); classes inferiores planificadas, porque os seus integrantes eram geneticamente adequados aos seus serviços e inferioridade, sendo preparados para sentirem-se satisfeitos com a sua condição social.

Hipnopedia (hipnose durante o sono), ateísmo, clonagem, e muita filosofia. Além de inédito, o livro faz você refletir sobre o nosso próprio sistema, faz você questionar uma lógica dominante e ser uma pessoa mais crítica, ter uma visão de fora, como o Selvagem, aquele que não foi criado no mundo "civilizado", que no início vê toda aquela sociedade pensada e produzida e a acha admirável, mas depois percebe seu lado pútrido: a felicidade através da desigualdade, da abdicação da felicidade individual para dar lugar a um sentimento de satisfação conjunta, de Bem-comum atingido. Ah sim, sem contar que os velhos aparentam ser jovens, porque sempre tomaram coquetéis da juventude. E a história deles também foi escrita pelas fordezas do governo, assim como os burgueses e a Revolução Francesa! Só de pensar já me da vontade de ler novamente. Taí mais uma dica.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Uma Garoupa por Duas de Cinqüenta

Que governante hoje não idolatra o ideal da Revolução Francesa resumido em três palavras: "liberdade, igualdade e fraternidade"?! Pessoalmente, acho esse lema dotado de uma pitada de hipocrisia. A "revolução" no fim das contas não teve muito de revolução: as mesmas estruturas sociais foram mantidas (Igreja, Universidades, corporações de ofício, a família como entidade fechada, etc), somente uma classe social continuou no poder, os pobres continuaram pobres e os ricos continuaram a comer brioches. Ah sim, "nada mais conservador do que um liberal no poder".

A burguesia, que tanto aclamava por poder, dizendo que iria ouvir as minorias, representar todas as classes, dar um fim no absolutismo, promover a liberdade e toda aquela baboseira acabou sendo ainda mais incisiva no controle do poder do que a própria nobreza. As tentativas de governos revolucionários tinham ar de amadoras, tanto que não passaram de experiências. O que efetivamente se estabeleceu foi uma monarquia, mas com os teóricos da época ao seu lado. Quem não consegue fazer uma coisa parecer boa com todas as fontes respeitáveis ao seu lado? Os burgueses reescreveram a história: passaram a chamar o governo nobre de absolutismo e seu governo de liberal.

No entanto, antes de 1789, os corpos da sociedade tinham voz própria, cada um podia ditar suas leis para aqueles que estavam inseridos em seus grupos. Assim, o pai ditava a lei para sua família, as guildas estabeleciam normas para os seus associados, os artesãos regulavam aqueles indivíduos da corporação, o senhor feudal reinava em seu feudo. O rei reinava sobre tudo isso, mas era obrigado a dar espaço para todas essas entidades também. Já a burguesia, ao se estabelecer no poder, no afã de acabar com toda aquela influência nobre na sociedade, resolveu ser fonte única da lei, estabelecendo a Declaração Universal do Homem, ninguém mais podia dar os ditames da sociedade! Escute, o universo inteiro deu autorização para aquele grupo de indivíduos "iluminados" falarem por todos?

Se antes um indivíduo representava um estamento, depois que a revolução foi estabelecida, um indivíduo representava a nação. Não era mais deliberado aquilo que o grupo queria e levado para as esferas superiores. Agora se vota num cara, outorga a ele toda a sua soberania, e ele tem o poder de falar por você. Sim, tudo o que ele diz você já previamente concordou, votando nele. Agora me diga se ele disse a você tudo o que ele iria fazer, falar, etc. Ele não fez um contrato explícito com todos os seus eleitores. E quem não votou no cara, é obrigado a acatar as burrices que o Lula solta por aí, ou as leis inúteis que o legislativo cria?

Essa é a herança que a Revolução Francesa nos deixou. Não estou dizendo que ela não mudou nada, porque se não seriam muitos os loucos que chamam o ocorrido de revolução à toa. Hoje, temos mais contato com os outros países, temos etiqueta na mesa, leis, etc. por causa dos loucos que estavam cansados de não comer os brioches da Maria Antonieta. O que afirmo aqui é que nem todos esse frutos vieram para o bem. Muitos deles acreditamos que são bons, mas na verdade foram distorcidos pelos historiadores e teóricos da época. Vocês sabiam que nem foi a Maria Antonieta que disse "Se não têm pão, que comam brioches"? Dizem as más línguas que foi uma camareira! Não acredito muito no que as minhas apostilas do fundamental e do ensino médio diziam sobre a vitória democrática do povo com a ascensão da burguesia durante a Revolução Francesa. E quem disse que a democracia é boa? Penso que nem tanta coisa mudou para aqueles que continuaram nos campos, para os pobres artesãos, etc.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

As Cidades como Não as Ousamos Ver

"As Cidades Invisíveis" - Italo Calvino

Para quem viaja bastante, ou nunca teve essa oportunidade. Para quem tem imaginação fértil, ou quer ter. Para quem gosta de apreciar uma paisagem, ou para quem valoriza uma descrição exata das coisas, ou para quem vive na subjetividade. Esse livro, publicado em 1972, pelo autor ítalo-cubano, Calvino, é uma viagem profunda e, ao mesmo tempo, suave, que nos cativa a cada página.

O livro é como um caderno de viagem, no qual Marco Polo, mercante veneziano, descreve todos os lugares e cidades pelos quais passou, com uma mistura entre a exatidão matemática e geométrica e a magia dos símbolos das cidades e sua importância na existência humana. Entre essas maravilhosas imagens temos diálogos, não menos poéticos, entre Polo e o imperador mongol Kublai Khan. A princípio, Khan só pede para que o viajante sacie sua curiosidade a respeito de seu cada vez mais vasto império e suas peculiaridades que, por estar envelhecido e ocupado, o imperador não pode conhecer pessoalmente. Mas, com o decorrer dos dias, após vários encontros e conversas, percebemos uma evolução no tema das conversações, passando de meras descrições físicas para aspectos existenciais, de marcos turísticos e perfil de habitantes para profunda análise psicológica de quem uma vez passou por tal cidades.

As cidades invisíveis descritas por Polo, no livro, possuem apenas nomes femininos, e sua descrição não passa de duas, três páginas, no máximo. Porém, ao nos envolvermos na profundidade de aspectos e na gama de possíveis interpretações para cada detalhe, fica difícil querer ler o livro rapidamente, ao mesmo tempo que queremos conhecer toda a extensão do império de Kublai Khan. Recomendo fazer como eu, Hermínia e Aline fizemos e como diz a orelha da edição da Companhia das Letras, apreciar o livro não como um turista apressado, encucado com os horários dos trens e aviões, mas sim como um despreocupado viajante que se detém numa bela paisagem por horas e volta atrás para reexaminar uma obra de arte.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Álbuns de Cabeceira

A maioria das pessoas tem livros de cabeceira, mas sempre que me fazem essa pergunta, eu não tenho uma resposta pronta. Porém posso dizer com toda a certeza que tenho discos de cabeceira. Daqueles que não me canso de ouvir, cujas músicas estão todas no meu aparelho de mp3, etc. Na verdade não é um, são dois. Sendo que um deles é duplo.

Sinto se parecer redundante, mas um deles é o Paralamas e Titãs Juntos e Ao Vivo. Eu sei, já falei inúmeras vezes desse álbum, mas é que realmente é uma obra prima. Primeiro, porque une duas das 4 maiores bandas na nossa história. Além disso, ouvir “Meu Erro” na voz do Branco Mello ou “Flores” na voz do Herbert é algo incrível. O álbum abre com “Diversão” – cujo riff de abertura, por sinal é o meu toque no celular – e assim vai longe por mais 18 faixas. Reúne músicas desde as do começo das carreiras – Como “Óculos” ou “Marvin”- até sucessos mais recentes – como “A Maior Banda de Todos os Tempos da Última Semana” ou “O Calibre”.

O show também tem participação especial de 3 grandes artistas. Samuel Rosa, vocalista e guitarrista do Skank, canta “O Beco” e “Lourinha Bombril”, Arnaldo Antunes canta as músicas que foram eternizadas na sua voz, “Lugar Nenhum” e “Comida”, sendo que essa última é junto com Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura, que ainda toca o pot-pourri “Selvagem+Polícia” – pretem atenção no fim de “Lugar Nenhum”, quando os 3 guitarristas fazem uma espécie de duelo de guitarras e o Andreas toca o riff de “Black Dog” do Led no meio do solo. Aliás, os dois pot-pourris – o outro é “Sonífera Ilha+Ska” - são bem interessantes já que fundem duas músicas, uma de cada banda, numa lógica admirável.

O outro álbum é uma paixão recente. O álbum duplo MTV Ao Vivo Barão Vermelho tem a mesma lógica do Paralamas e Titãs: um show antológico – que nesse caso foi na capela do Rock Nacional, o Circo Voador – com sucessos antigos e recentes em versões do mais puro Rock N’ Roll. 25 faixas, desde as do começo de carreira, na época Cazuza – como “Pro Dia Nascer Feliz”, “Bete Balanço”, “Maior Abandonado”, “Por que a Gente É Assim” ou “Down em Mim” – até clássicos da fase Frejat nos vocais – como “Pense e Dance”, “Cuidado”, “Por Você” ou “Puro Êxtase”.

Destaque para os covers do álbum. “Tente Outra Vez” do Raul Seixas, “Quando o Sol Bater na Janela do seu Quarto” da Legião Urbana – que por sinal é mais legal que a original e no finzinho tem direito a solinho de “Here Comes the Sun”, dos Beatles -, “Malandragem Dá um Tempo” do Bezerra da Silva – que na versão do Barão ficou excepcional – e “O Tempo Não Pára”, da carreira solo do Cazuza. Aliás, falando em Cazuza, até ele tem uma participação especial nesse show. Quando é tocado “Codinome Beija-Flor”, um vídeo dele e o Frejat fazem uma espécie de dueto extremamente tocante.

Acabei me inspirando no Jamil e em suas viagens pelos seus álbuns favoritos pra fazer esse texto. Acho que realmente, esses são os dois álbuns que mais me fazem transcender pro maravilhoso mundo da música. Eles só saem da minha cabeceira, pro toca discos do meu carro, quando eu tiver um.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Peso, com Velocidade

Bandas que duram mais de duas décadas, com qualidade de som, são raridades. As que o fazem, são consideradas clássicas, obrigatórias no mp3 player de todos. As pioneiras de certos gêneros também tem um peso grande em nossa cultura musical. Quando ouvi pela primeira vez a banda que comentarei hoje, por influência de meu irmão mais velho, sabia que tinha ouvido algo que mudaria meu gosto pro resto de minha vida. "Seek and Destroy" abalou minhas estruturas, até então intocadas por música boa. Metallica, uma das primeiras bandas de metal de sucesso, "criadores" do speed ou thrash metal, é uma banda de respeito.

Os três primeiros álbuns da carreira deles, "Kill 'em All",  "Ride the Lightning" e "Master of Puppets" são marcos na história do rock pesado. Velocidade, quebras de ritmo inesperadas, letras fulminantes, riffs poderosos. Enfim, três álbuns extremamente pesados, rápidos e com uma sonoridade impecável para uma banda que surgiu da cena underground da Califórnia, com influências do metal britânico recém-surgido (Iron Maiden, Motorhead, Diamond Head, Judas Priest). O quarto álbum, "...And Justice for All", não deixou por menos na discografia da banda. Com letras politizadas, críticas à guerra e à corrupção, riffs marcantes com solos absurdos e o ímpeto de fazer levadas ainda mais velozes na guitarra, Metallica chegava ao seu ápice na carreira.

Com a morte do baixista, letrista e mestre Cliff Burton, pouco antes do lançamento do "..And Justice...", Metallica passou um tempo ignorando e menosprezando o novo baixista, Jason Newsted, o que levou a álbuns com qualidade sonora mais baixa (o quarto álbum teve que ser remasterizado posteriormente pela extrema desvalorização do baixo no original). No meio de tudo isso, em 1991, é lançado o "black album", na verdade, entitulado "Metallica". O maior sucesso comercial da banda, canções um pouco mais leves, sem perder a compostura de uma banda de metal, foi o que trouxe o grupo ao mainstream.

Depois de alguns álbuns que, como fã conservador, prefiro ignorar ("Load", "Reload"), Metallica voltou, em 2003 com o álbum "St. Anger", no qual parte de sua potência antiga foi retomada. O baixista da vez, que continua até hoje no grupo, Robert Trujillo, ex-Suicidal Tendencies, ganhou rapidamente o respeito do grupo e dos fãs, pela habilidade no instrumento e, também, pela cara feia e atitude de roqueiro barra pesada.

Em 2008, retomada a força e velocidade antigas, é lançado o "Death Magnetic", que obteve relativo sucesso. Porém, o que eles conseguiram com esse álbum foi voltar a chamar a atenção de fãs que haviam deixado a banda de lado. Faixas velozes como antes, uma canção instrumental, que era hábito até a era comercial da banda, e a cerimônia de 2009 do Rock and Roll Hall of Fame, na qual o Metallica foi introduzido, fizeram lembranças dos álbuns antigos, boas, por sinal, voltarem às mentes dos fãs do bom metal.

Agora, mais precisamente, nesse sábado (30/01), o grupo vem ao Brasil, em São Paulo, fazer uma apresentação da turnê World Magnetic Tour. Esperemos para ver se, realmente, o Metallica está feroz e pesado como antes.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O Power Trio de Bermudas

Voltando à minha idéia de fazer um post pra cada um dos grupos do quarteto sagrado do Rock Brasileiro, a escolha da vez são os brasileiríssimos Paralamas do Sucesso. Digo brasileiríssimos porque são poucas as bandas que conseguem fundir a cultura latino-brasileira com as guitarras do Rock N’ Roll, e nisso eles são os melhores.

A banda, que tem duas cidades natais – Brasília e Rio de Janeiro, afinal a maioria é da Capital Federal, mas a banda começou na Cidade Maravilhosa -, se destaca por alguns fatos. Primeiro de tudo, é um Power Trio – Power trio, pra quem não sabe, é uma banda de 3 integrantes, um baixista, um baterista, um guitarrista, sendo que um dos 3 é o vocalista, como Police, Nirvana, Green Day, Blink 182, Rush, etc. -, que já é algo louvável. Além disso, continua lançando álbuns de qualidade e evoluindo a cada ano que passa, diferentemente da maioria das bandas que começaram com eles. Por fim, o acidente que deixou o vocalista Herbert Vianna paraplégico, que mesmo de cadeira de rodas, não deixou o show parar. A propósito, o nome “Paralamas do Sucesso” foi dado por Bi Ribeiro, o baixista, numa tentativa de dizer um nome engraçado, acabou que todos gostaram.

Mas vamos às indicações. Eu tenho costume de indicar músicas menos famosas das bandas, mas essa versão dessa música eu não podia deixar de comentar. Todos já ouviram “Óculos”, mas no show Paralamas e Titãs, juntos e ao vivo – que virou DVD, CD e que eu já citei no texto sobre os Titãs –, lá pelo final da música ao invés de dizer “Atrás dessas lentes também bate um coração”, que é a letra original, o Herbert canta “Em cima dessas rodas também bate um coração”, e em seguida o povo vai ao delírio. Algo que sempre me toca quando ouço e que você pode checar aqui.

E como prova do que eu tinha dito antes sobre eles evoluírem cada vez mais, uma das minhas músicas favoritas do grupo é “O Calibre”, do décimo disco da banda, “Longo Caminho”, lançado em 2002, um ano após o acidente do frontman da banda. A música é o retrato mais fiel da insegurança que as metrópoles nos trazem. Quem mora em cidade grande compreende exatamente o que a música quer dizer com “Perdido em números de guerra, rezando por dias de paz”. Além da boa letra, o riff é interessantíssimo. Bem mais trabalhado do que a levada de Ska do “Melô do Marinheiro” do começo da carreira dos caras.

Outra coisa que eu não posso deixar de falar é sobre a música “Lourinha Bombril”. Ela sintetiza praticamente toda a miscigenação brasileira. “Essa crioula tem o olho azul, essa lourinha tem cabelo Bombril, aquela índia tem sotaque do Sul, essa mulata é da cor do Brasil.”, mas apesar de toda essa identificação, o que poucos sabem é que ela é uma versão de outra música de um grupo latino, “Parate y Mira” do Los Pericos. Sinceramente, não é pra puxar sardinha pro nosso lado, mas a dos Paralamas deixa a original no chinelo, ainda mais nessa versão – naquele mesmo show com os Titãs – que conta com a voz e a guitarra de Samuel Rosa, do Skank.

Por fim, outra música conhecida, mas numa versão totalmente inusitada, é “Alagados”. Aposto que todos já ouviram alguma vez na vida, mas duvido que muitos tenham visto ela ser cantada pelos Paralamas junto com a Banda Calypso. Isso mesmo, Joelma e Chimbinha. E sabe que não ficou ruim? O ritmo do Pará combinou perfeitamente com o “Rock de bermudas” – de bermuda por ser um rock tropical, nada parecido com o original, de calças jeans e jaquetas de couro. Essa invenção do Estúdio Coca-Cola Zero pode ser vista aqui. A propósito, o refrão dessa música é “Alagados, Trenchtown, Favela da Maré...”. Trenchtown é a favela de onde veio Bob Marley e boa parte dos Wailers. É bom frisar isso porque os próprios Paralamas já comentaram dos absurdos que ouvem da plateia nessa parte da música. Eu mesmo cantava errado antes de checar a letra.

Então é isso. Espero que aproveitem o ritmo contagiante dessa grande banda brasileira, que por sinal está com um disco novo nas lojas, “Brasil Afora”, retomando as influências do Reggae do começo da carreira.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Transgressões

Nadar contra a maré sempre foi algo cultuado pelas pessoas, mesmo que por fora, pelo underground. Aquela ideia, aquela vontade de rebeldia, de liberdade exacerbada, sempre povoou nossa imaginação. Quem nunca deu um deslize, também? Dirigir sem carteira (ops!), assistir filmes ou shows sem pagar, usar drogas (lícitas e/ou ilícitas). Todos exemplos de "pequenos" erros que, a primeira vista, parecem inofensivos. Outra coisa: regras bobas, leis idiotas. Como assim tenho que prestar contas de tudo para o fisco? Ou tenho que fazer auto-escola por trocentas horas, mesmo já sabendo dirigir? Só servem para incentivar rebeldia, desprezo pela ordem.

A literatura, obviamente, se envolve bastante nessa discussão. Por indicação de uns e lembrança de uns conceitos esquecidos, cito aqui dois monstros sagrados: Nietzche e Dostoievsky. Desse ótimo artigo achado na web (cof, cof... hipocrisia...) tiro que o russo foi o primeiro a criar o conceito de "homem-idéia", enquanto o alemão, seu confesso admirador, moldou o "super-homem", seguindo algumas diretrizes do primeiro. Mas a essência é a mesma nos dois conceitos: com o advento do ateísmo, liberalismo e outras teorias libertárias, os autores viram o surgimento de pessoas que, ao terem a capacidade ideológica de viver "além dos credos" (Nietzche), podem tudo. Tudo mesmo. Dostoiévski mostrou (muito bem) em seus romances esse tipo, porém, criticando-o. Enquanto isso, Nietzche via aqui a morte de Deus e a conseqüente abolição do pecado. Portanto, temos aí o "aval intelectual" para transgressões.

Mas não há um motivo para existirem leis? Mesmo não as conhecendo ("Ninguém se escusa de cumprir a lei, alegando que não a conhece", artigo 3º da Lei de Introdução ao Código Civil), devemos cumpri-las. Afinal, uma pessoa que, durante um congestionamento no trânsito, resolve "cortar caminho" pelo acostamento está perturbando a ordem e a boa convivência em uma sociedade civilizada da mesma maneira (a grosso modo) do que uma que rouba, por fome, uma caixa de leite do supermercado.

Não devemos cultuar quem transgride regras como sendo "descolado", não podemos passar a mão na cabeça de quem, como diria Chico Science, é "bandido por necessidade", por uma questão de classe, nem existe a possibilidade moral de nos perdoarmos ao percebermos que fizemos algo que atrapalhará o resto da sociedade. Há exceções? Não me arrisco em dizer, mas que é tentador dizer que sim para nos safarmos de umas e outras, é.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Vim, Vi, Passei

“O bom é que tá todo mundo calmo aqui, né?” disse eu enquanto meus pais discutiam no caminho pro Agrárias. Todos os 3 “tavam mordendo o mouse”, como diz meu amigo iratiense – que passou em 1º de civil, por sinal – André. Chegando perto, cada cor de bandeira representava um cursinho. As amarelas do Positivo, as vermelhas do Dom Bosco, as Verdes do Bom Jesus e do Unificado. Uma verdadeira babel de pré-vestibulares.

Depois de encontrar um lugar pra estacionar – tarefa difícil – entramos no campus. Andando, observando os vestibulandos ansiosos e suas respectivas famílias, rumei à barraquinha de Direito. De longe, a mais animada. Logo encontrei a Polie, a Ghi e uma amiga delas - minhas até então futuras veteranas - que já me animaram.

Já eram 14h e nada do resultado. É engraçado porque algumas barraquinhas já tinham o resultado e gritos de “passei” só causavam mais agonia nesse pobre até então vestibulando que vos escreve. Eis que chega o envelope de Direito, finalmente. Perfuro a multidão mas a primeira fila já tava ocupada. Procurava pelo meu nome e não conseguia ver a página por inteiro. Como meu nome começa com “A”, teria de estar logo no começo, porém a primeira página sempre estava virada. Vi o sobrenome de uma amiga minha “Cassou” e já me alegrei por ela.

Eis que vejo de relance “Hillani” e sinto um orgulho subindo até a garganta. Me viro e me uno aos “gritadores de ‘passei’”. Minha mãe me mostra a surpresinha dela: uma camiseta escrito “Allan, eu já sabia”. Aliás, “eu já sabia” é o que muitos me disseram nas mensagens de congratulações. A confiança que todo mundo botava em mim era algo assustador! E se eu não passasse? Mas tudo está bem quando acaba bem.

Hoje olho pro meu 2009, que eu nem vi passar, e lembro dos domingos em que tive aula, nas gargalhadas que eu dei, nas coisas que me aconteceram. Vi que o cursinho é quase que um rito de passagem do mundo cor-de-rosa do ensino médio para a vida universitária. 2010 tem tudo pra ser o meu ano. Maioridade, carteira, carro e o mais esperado de tudo: uma vaga em Direito Diurno na Universidade Federal do Paraná. Vim, vi, passei.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A Hierarquia do Coração

Seu sorriso é lindo,
E se disser o mesmo sobre mim
Sei que estará mentindo.

Ah, e o seu cabelo,
Que me seduz sem parar
E não se cansa de fazê-lo.

E seus quadris bem-desenhados,
Prontos pra deixar
Qualquer um desgovernado.

Porém se me pedir para escolher
Entre o amor e a amizade,
Fico com a amizade, sinto lhe dizer.